Numa altura em que os campeonatos estão em pausa, fomos falar com Jorge Gonzaga, o “Joca” para os amigos, acerca da sua experiência no Kartcross.


De uma pequena entrevista, acabamos por ter uma longa conversa, acerca desta disciplina que está num momento positivo e que merece toda a atenção que lhe conseguirmos dispensar.
A nossa primeira questão, prendeu-se com a temporada de 2019. Uma época com cinco vitórias, um campeonato garantido ainda a duas jornadas do final. Até parece que foi época fácil. “De modo algum! Além das dificuldades em pista, que fomos ultrapassando, havia vários pormenores de fiabilidade relacionados, sobretudo, com o grupo traseiro que conseguimos detetar e resolver durante as primeiras corridas. Tivemos momentos bastante complicados, sobretudo em Castelo Branco, mas fomos capazes de ser competitivos, mesmo sem estarmos a 100 por cento. Isso motivou-nos imenso e permitiu-nos controlar o campeonato daí para a frente, o que foi bastante mais confortável”, confessou “Joca” Gonzaga.
Para a próxima temporada, vai haver troca de máquina. Gonzaga rendeu-se aos La Base Motorsport. Com os títulos de Vice-campeão em 2017 e campeão em 2018 e 2019. Vencedor da Taça de Portugal em 2016 e 2018. E tudo isto com um chassis ASK. Quisemos saber, o porquê desta troca. “Nos primeiros momentos, em equipa, falamos sobre isso. Na verdade, tínhamos um bom chassis, equilibrado e competitivo, que nos permitia lutar pela vitória em todas as pistas. E conseguimos fazê-lo. Mas fazer uma nova temporada com tudo exatamente igual seria mais do mesmo e iria causar um grande desgaste, sobretudo psicológico. Esta foi uma forma de contrariar essa tendência e motivar todos. Ao mesmo tempo, é uma aposta segura pois conhecemos bem a marca, a sua qualidade de construção e, acima de tudo, as pessoas que estão envolvidas. Isso foi fundamental para esta mudança”.
Ainda assim, será um novo carro, com muitas coisas para aprender. “Precisamente. E isso para nós é positivo porque não permite relaxar. Todos nós na equipa temos um passado desportivo de competição, em diversas modalidades, e isso faz-nos encarar este tipo de desafios com uma motivação diferente. Temos plena consciência que é do nosso esforço que vai sair o nosso resultado, e isso tira-nos da zona de conforto e obriga-nos a ser cada vez melhores como equipa”, explicou o novo piloto dos RX01, a marca representada em Portugal, por Luís Almeida.
Quando se chega a uma modalidade é normal que se olhe para quem já lá está e se tente seguir alguns exemplos. “Sem dúvida. Nós olhamos e analisamos o que fazem os adversários, mas a vantagem é que nunca nos condicionamos por isso. Não estar disponível para experimentar novas soluções e apenas seguir o que alguém já fez, é uma forma de estar que te limita e que te permite, no máximo, ser igual aos outros. Durante anos, o nosso campeonato foi um perfeito exemplo disso. Quem quer ser melhor e vencer, não se pode limitar dessa forma”.
Temos assistido a uma melhoria geral no paddock do Kartcross nos últimos anos, mas continua a haver uma descida no número médio de pilotos. “A minha opinião, neste assunto, está um pouco longe do politicamente correto, porque creio que o principal problema são os próprios pilotos e construtores e algumas mentalidades. Há uma tendência generalizada de justificar o insucesso com comentários tipo ‘aquele tem o motor ilegal’, ou ‘fulano domina a Federação’, ou ‘sicrano controla regulamentos’. Esta postura dura há anos e retira valor ao campeonato, acabando por afastar novos praticantes. E o mais preocupante, no meu ponto de vista, é verificar que muitos seguem estas ideias como religião, sem opiniões próprias e polarizados em equipas do tipo ‘se fulano pensa assim, então nós somos contra’, sem preocupação pelo futuro ou pela modalidade. Se quem participa passa o tempo a criticar, então quem está interessado desiste ainda antes de começar”. Um intervalo e Jorge Gonzaga completou. “Do lado da Federação acho que nos últimos dois anos houve muitas coisas que melhoraram, mas ainda há algumas indefinições que atrasam o avanço desta disciplina e que a afastam como opção para novos valores. Num momento em que, a nível europeu, se nota uma aposta forte nesta disciplina, seria importante ter uma linha bem definida para garantir a atratividade do Kartcross. Creio que estamos num caminho positivo e tem havido abertura para a discussão, mas, repito, alguns pilotos e construtores não facilitam esta tarefa”.


De seguida, a conversa dirigiu-se para a necessidade de tornar o Kartcross mais atrativo. De conseguir que o Kartcross atraia mais jovens pilotos, por exemplo. “No campo técnico, é urgente estabelecer uma direção a seguir no médio prazo em relação a chassis e motores. Algo que permita a um novo piloto chegar, estabelecer metas e um nível de investimento, e fazer uma aposta a três ou quatro anos sem hesitações. Nos chassis é necessário estabelecer alguns parâmetros de segurança, nomeadamente ao nível de testes de resistência à semelhança do que se faz noutros países, e garantir que os chassis atuais podem rolar mais tempo desde que dentro desses condições. É também importante garantir a presença de técnicos dedicados ao Kartcross que possam verificar de forma expedita alguns elementos, até durante a prova no próprio paddock. Por muito boa vontade que os técnicos atuais tenham, é difícil acompanhar este tipo de veículos, por equiparem motores de moto e com características diferentes. Para mim, este seria o caminho a seguir na parte técnica”. Depois, falou-se da parte desportiva. “No aspeto desportivo, acho que o facto de acompanharmos o Ralicross é motivo para que também o regulamento de Kartcross seja adaptado, à imagem do que se faz noutros países. Corridas mais curtas, menos carros em pista, mais corridas, mais equilíbrio, mais emoção. Mas mais uma vez esta vontade esbarra em alguns pilotos que querem manter o Kartcross como há 15 anos, em autocross. Até para os espectadores é difícil seguir a corrida e as classificações, com tantas diferenças entre o Kartcross e o Ralicross. Há tantos exemplos de sucesso na Europa, e acho que seria uma lufada de ar fresco este desporto e potencialmente atrativo para novos praticantes”. Uma situação com que o OffRoad Portugal concorda e a que já se referiu anteriormente.
Sabemos que o regulamento técnico sofreu algumas alterações para o ano 2020, e que não estás de acordo com algumas delas. “Vamos por partes. Eu não sou ‘contra’ ou ‘a favor´ dos regulamentos. Se aceito as regras, vou competir. Se não aceito, não me inscrevo. O que garanto é que como equipa vamos estar presentes em todas as rondas do campeonato nas melhores condições possíveis, sempre de acordo com os eles. Posto isto, há alterações que considero muito positivas e outras que creio serem negativas”. Uma pausa e concluiu, quanto a este assunto. “Por um lado, é de louvar a reestruturação do regulamento técnico, que acompanhou as linhas do novo regulamento FIA Crosscar e mudou imenso na forma e conteúdo. Agora é um documento mais claro, simples, objetivo, e com uma boa base para as temporadas futuras”. Mas nem tudo foram rosas, quanto aos regulamentos. “Por outro acho que foi um erro a autorização da alteração das árvores de cames dos motores, ao invés de motores totalmente de série. Não vejo que traga qualquer benefício à modalidade e representa um aumento da despesa na preparação e manutenção do motor e sobretudo o aumento dos custos para que alguém que se quer iniciar na modalidade. Contudo, foi esta a opção pela qual se bateram alguns pilotos, e um construtor, que praticamente exigiram esta mudança. Pessoalmente, sempre fiz saber que considero isto um erro estratégico para a modalidade, que no curto prazo não trará qualquer benefício a não ser para aqueles que já não terão de fazer alterações. Todos os restantes irão ter custos agravados e, pior ainda, dificulta-se a entrada de novos pilotos, o que deveria ser uma preocupação central. Também o peso aumentou em 25Kg, quando o lastro permitido é de apenas 20 quilos, mas estou certo que esta situação será revista em breve”. Uma opinião com que concordamos, pois deverá arranjarem-se soluções para reduzir custos e não para os aumentar.


Essas alterações que mencionas aumentarem os custos, vão certamente dar lugar a aumentos de performance. Não será uma boa solução para a competição? “Somos constantemente a classe mais rápida num fim de semana de ‘nacional’, por isso não acredito que a performance nos nossos carros fosse problema. Muitos pilotos concordam que há um défice na aplicação dos regulamentos ao nível das verificações técnicas, tanto em termos de chassis como de aspetos de segurança, e não apenas em relação a motores, e por isso acredito que era neste sentido que devíamos centrar esforços e melhorar as condições da própria federação para credibilizar a modalidade”. Mais verificações finais e mais concisas. Se calhar como acontece no país vizinho
Ficou clara a posição de Jorge Gonzaga, relativamente a estas alterações da parte técnica. Faltava falar do Regulamento Desportivo. “No regulamento desportivo acho que, honestamente, até recuamos uns anos. Teremos agora uma sessão conjunta de treinos livres e cronometrados. Ou seja, após umas semanas sem corridas, entramos na pista diretamente para sete voltas, em que três são livres e cronometradas. Sem aquecimentos, sem testes, sem referências. É logo a valer, e com os tempos cronometrados a valerem um ponto para o campeonato e a servirem de desempate em caso de necessidade. Isto é pouco menos que absurdo. Depois, mantemos apenas as três corridas de qualificação, quando poderíamos fazer quatro como o Rallycross, e aproveitar as 3 melhores. As qualificações voltam a ser por posição no final da série, e não por tempo total. Um piloto fica em 3º lugar sendo muito lento numa série e ficará na frente de um piloto que ficou em quarto lugar na série dele, mesmo tendo sido mais rápido. E temo que aumentem consideravelmente os toques em pista, na primeira curva, como se verificava há quatro anos. Enfim, há coisas que ainda não tenho certezas, mas são neste momento os regulamentos que temos e só espero que no futuro os pilotos sejam mais abertos a estas questões, porque está na hora de evoluir e dar lugar a novas ideias. Tudo muda, e nós devemos mudar também”. Copiou-se o que acontecia no Autocross, fazendo marcha-atrás. Deveria era olhar-se para o que se faz lá fora, quando o Kartcross corre em pistas de Ralicross. Por outro lado, alterações nos motores, poderão impedir os nossos pilotos de competirem em “terras da estranja”.


Uma situação que nós no Offroad Portugal consideramos errada é relativa ao calendário e ao sistema de escolha de provas. Já nos disseste que não concordas com a opção tomada de ser o piloto a escolher quais as provas que pontuam, mas parece que há uma solução que consideras melhor. “Este calendário que é método de escolha ‘tipo rally’ é provavelmente a ideia mais estranha que vimos nos últimos anos. Não faz sentido no nosso desporto e poderá prejudicar diretamente alguns clubes, criar situações dúbias em relação à performance de alguns pilotos nas provas onde não vão pontuar e até adulterar o campeonato, pois em algumas classes corremos o risco de ter corridas com dois ou três carros. É uma lotaria, é injusto, e continua a obrigar pilotos a fazerem uma corrida que poderá não pontuar. Na minha opinião, além da Taça, deveríamos ter oito provas, todas de presença obrigatória e a contar”. Isto seria o que muitos esperavam que viesse a acontecer, referimos nós como um aparte. “Com a confusão que ocorreu no número de provas, e considerando que os pilotos compreensivelmente não pretendem ver aumentado o campeonato para nove provas, para mim, só uma opção faria sentido. O campeonato seria composto por nove corridas, sendo que as oito melhores pontuações seriam consideradas para a classificação do campeonato, e considerava-se uma ausência como pontuável. Ou seja, se o piloto falta a uma corrida das nove, essa corrida seria a pior pontuação e seria descartada, contando as restantes oito para a classificação do campeonato”. Nós não só concordamos que seria uma boa solução, para o caso das nove provas, como até achamos que seria a única a ter cabimento.
Falou-se em provas e ao mesmo tempo, soubemos que a pista de Baltar ficou de fora do campeonato sem ninguém entender muito bem porquê. “Eu não sei o porquê das opções das pistas, nem tenho voto nessa matéria, obviamente. Mas independentemente das opções tomadas, ou das razões para elas, acho que o campeonato terá sempre a ganhar quanto maior for a variedade de pistas onde podemos competir e é preciso que os clubes entendam que não pode ser ‘obrigatório’ haver duas corridas em cada pista. Há que melhorar condições, continuar a evoluir, fazer boas organizações. E seria bom uma pista mais a Sul. As viagens são dispendiosas, mas seria mais fácil para resgatar alguns pilotos de outras modalidades e ganhar visibilidade no nosso campeonato”.


Falou-se várias vezes de atrair novos valores, novos pilotos. Além dos regulamentos e das situações que mencionaste, parece que poderá haver mais formas de atrair a atenção, para este desporto. “Essa é uma situação que tenho discutido com algumas pessoas, incluindo pilotos, e que tentaremos desenvolver ainda durante este ano. Temos algumas ideias relativas a este assunto, que incluem a criação de cursos de pilotagem que darão aos interessados a oportunidade de experimentar o Kartcross através da frequência desses cursos. Também estamos a iniciar contactos para a eventual presença de pilotos saídos do karting, neste desporto de forma a incluir o Kartcross como opção na hora de ‘dar o salto’ para fora do karting”. Desejável é que assim aconteça.
Para regressar a ti e à equipa Racing268, imaginamos que os objetivos continuam a passar pela disputa do campeonato. Para além do chassis que já falamos, devemos esperar mais novidades? Mais provas? Outros campeonatos. “De um modo geral, não haverá grandes alterações. Vamos continuar a utilizar motores Yamaha R6 e suspensão Extreme Racing Shox. De resto, vamos olhar para o campeonato com a intenção de continuar a estar presentes na Gala dos Campeões. Poderemos eventualmente marcar presença noutros eventos como o Mundial WRX em Montalegre, o TitansRX, o WRC ou o Motorshow. Também há curiosidade de fazer uma presença pontual noutros campeonatos como Espanha, Grécia ou Irlanda. Mas tudo isto são ainda ideias muito vagas. Por agora o foco está no novo chassis e em aprender a trabalhar com ele. O resto logo se verá”.
E relativamente à equipa? Pelo que sabemos vai haver algumas novidades em 2020. "Sim. A intenção passa por tentar potenciar o alcance da equipa Racing268 com a criação de um website que se centrará sobretudo no Campeonato de Portugal de Kartcross e na nossa equipa, mas sem fechar a porta a outros desportos para tentar atrair adeptos de outras áreas e dar a conhecer o Kartcross e o nosso trabalho. Temos também alguns planos noutras áreas que atempadamente iremos dar a conhecer. E, obviamente, também vamos utilizar o site potenciar as nossas parcerias e proporcionar mais soluções a todos quantos queiram publicitar as suas marcas. Aliás, podem consultar a nossa proposta online através do link que amavelmente o Offroad irá partilhar mais abaixo”
Claro, iremos partilhar. O Offroad estará sempre disponível para ajudar todos os que queiram o melhor para a nossa modalidade. Assim nos despedimos, e agradecemos por esta tarde e esta conversa.


E Jorge Gonzaga, depois desta agradável conversa, também quis agradecer. “Agradeço eu, ao Offroad Portugal, por esta oportunidade para deixar algumas ideias à consideração dos aficionados deste desporto, para que possamos debater e entender qual o melhor rumo a seguir. O meu desejo é que possamos ver este deporto melhorar a cada ano, e que todos nós saibamos adaptar ao que os tempos exigem. A todos deixo votos de um Santo Natal e que 2020 vos traga em dobro tudo o que me desejam!”
E pronto, foi assim que terminou esta conversa, até com uma certa troca de ideias, que merecem a nossa total concordância.

Antes de sair da página, não deixa de visitar a Proposta 2020 – Racing268

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